sexta-feira, 11 de maio de 2012

MINHA MÃE – NO MEU PASSADO E NO MEU PRESENTE - UM PRESENTE DE DEUS

Esta semana, por ser dia das mães no domingo, pensei em escrever uma reflexão sobre este personagem cem por cento presente na vida de cem por cento das pessoas. E é claro que uma reflexão sobre esse assunto versaria em torno da única pessoa que eu conheço como mãe: a MINHA. Mas aí já surgiu a primeira dificuldade. Minha mãe, não é a única pessoa que eu conheço no papel de mãe. A outra, obviamente, sou eu. Pensando por esse lado, cheguei a uma conclusão no mínimo, estranha. Conheço muito mais a mãe de outra pessoa (no caso da minha filha) do que a minha própria mãe. Sendo assim, será que eu realmente conheço minha mãe? Será que ela é realmente do jeito que eu vejo? Ou será que essa mãe que eu consigo enxergar com clareza, é a mãe que eu SOU e não aquela que eu TENHO? Confuso, né??? (sim, é confuso sim. dá pra mudar essa linha de pensamento???). Vou tentar.
Quando eu era criança, eu via minha mãe como uma mãe muito brava. Eu tinha dor de barriga a cada dois dias porque não queria ir à escola e ela, muito brava, dava-me palmadas no traseiro pra eu deixar de manha e pegar a estrada. E eu ia. Como eu nasci e me criei na roça, as oito horas da manhã, minha mãe pegava os quatro filhos, botava uma roupa velha no corpo, um chapéu na cabeça de cada um e íamos todos em um carrinho de burro pro meio da roça. Eu era muito pequena e achava tudo aquilo uma tortura. Como eu não tinha idade e nem força pra pegar no cabo da enxada, minha mãe me deixava embaixo de uma árvore e ia com os outros três para o penoso trabalho braçal embaixo de um Sol escaldante. Por muitas vezes, eu ficava ali sozinha, sentindo-me abandonada, desprotegida, com fome e algumas vezes tremendo de medo dos temporais de chuva que se armavam e partiam pra cima de mim como se fosse um bicho feroz querendo me devorar. Talvez, na fragilidade dos meus medos eu não pude, naquele momento, avaliar o quão valente foi aquela mulher que lutava contra seus próprios medos para transmitir a nós um pouco de confiança. Lembro-me (e essa eu tenho certeza que nenhum dos meus irmãos se esqueceu) de um dia em que o pobre burro fatigado desabou sobre as pernas, exausto, sem forças pra continuar. Recordo-me do esforço sobre-humano da minha mãe para conter o desespero e manter a calma naquele local distante e solitário com quatro crianças e um burro moribundo.
Em outras ocasiões, quantas vezes percebi que ela deixava de comer uma coisa, só para deixar para nós. E nós comíamos sem remorso. Sem perceber que talvez ela estivesse ficando com fome só para nos dar um pouco mais.
Então minha irmã caiu de um trator e rachou a cabeça. Depois do caso passado ríamos dela e dizíamos que nem assim ela tinha conseguido fazer os treze pontos (em alusão aos da loteria), porque nessa brincadeira ela ganhou quinze pontos e uma grande cicatriz. Mas, com esse acidente quem nunca mais cicatrizou foi o coração da minha mãe, que passou a nutrir um profundo desgosto de permanecer naquelas paragens áridas da zona rural. Lembro-me ainda de tantas vezes em que a seca da região era um prato cheio para as queimadas que se espalhavam pelos pastos secos e por várias vezes avançaram em direção à nossa casa. Nessas ocasiões, lembro-me da minha mãe rezando baixinho, pedindo proteção aos Santos que naquela época não me eram muito familiares.
Quando eu tinha dez anos, viemos para a cidade. Meu pai, de tirador de leite passou a dono se sorveteria. Nossa! Foi a melhor época da minha vida. Acho até que foi por causa disso que ganhei esses quilinhos a mais. E bastava meu pai dar uma ligeira bobeira e lá estava eu...roubando picolé. Tudo isso parecia um paraíso para mim, mas quem padecia nesse paraíso era minha mãe (afinal ser mãe é padecer no paraíso). O excesso de trabalho era grande e nós, ajudávamos muito pouco. Aos poucos, um por um, meus irmãos foram abandonando os estudos e por fim só restei eu. A possibilidade de sair da roça e concluir o segundo grau já era algo grande. Fiz magistério. E ser professora já era uma alegria sem tamanho (naquela época professores eram mais respeitados e valorizados). E eu sempre sonhei ser professora. Sonhava em falar, falar, falar (e eu falo, hein?). Mas ser professora da galera pequena, dos pixotes, dos pivetes, não me alegrava muito. Foi então que eu vi a possibilidade de juntar duas paixões: ser professora e a Biologia. Ir pra faculdade não foi tão difícil quanto permanecer nela. Meus irmãos abriram mão de realizações próprias em favor da realização dos meus sonhos. Minha mãe foi o grande incentivo silencioso desta jornada. As dificuldades financeiras eram muitas, mas ela sempre me descolava o dinheirinho do ônibus, do Xerox e muitas vezes levantou uma horinha mais cedo só pra me preparar aquela marmitinha para eu não gastar com comida. Humm! E é claro que a comida dela era cem mil vezes melhor que a do bandejão. Não sei se minha formatura trouxe a ela a compensação que ela merecia. Não sei se ela teve consciência de como ela foi importante na minha caminhada.
Vieram o mestrado e o doutorado. E quando o nascimento da minha filha me pegou bem no meio do meu doutorado, foi ela que ficou tomando conta do meu bebê, o qual eu nem tinha muito jeito (e nem paciência) para cuidar.
Há dez anos, um pedaço do coração da minha mãe partiu para sempre juntamente com a minha irmã. Não tenho ideia do que ela sentiu. Ninguém que não tenha perdido um filho pode avaliar isso, certamente. Quase um ano de depressão e dor extrema, no entanto, não foram suficientes pra derrubar essa mulher pacata, serena, chorona (uma manteiga derretida). Quando menos esperávamos ela ressurgiu das cinzas, voltou à vida e continua seguindo em frente. É ela o ponto de equilíbrio da minha família. É em torno dela que sentamos todos juntos. Como um grupo ao redor de uma fogueira em noite de geada.
Nessa véspera de dia das mães, às duas e trinta da madrugada, relembrando tudo isso, concluo que sou um lixo de filha. Que faço eu por ela? Que fiz eu por ela durante toda vida??? Como posso achar que sou boa filha se até hoje sei que ela não dorme enquanto eu não chego? E ainda fico brava com ela porque ela não dorme enquanto eu não chego. E eu como mãe? Como posso ser boa mãe pra minha filha se não chego aos pés da minha? Porém, agora que esta madrugada já está ficando fria e o sono já começa a me rondar, eu tenho apenas um agradecimento e um pedido a fazer. E não é à minha mãe. É a Deus.
Obrigada senhor, por eu estar viva, pois apesar de ter tantos defeitos, sei que minha mãe não suportaria me perder e quero te pedir: dê saúde e vida longa à minha filha para que eu possa voltar para os teus braços sem nunca ter visto um filho partir antes de mim. AMÉM!

Um comentário:

  1. Chorei demais.... que lindo, Maria Antonia. Pude de conhecer melhor agora e quero te dizer que te admiro, asssim como à sua mãezinha. Saúde a todos vocês, porque o resto, todo o resto, vocês já tem. Bjs. Luciana Casemiro.

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